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‘Muro de Berlim’ divide Palmeiras e São Paulo com espionagem e apostas

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Que um muro separa a enorme rivalidade entre Palmeiras e São Paulo, a grande maioria das pessoas sabe. Mas essa barreira, comparada em tom de brincadeira ao muro de Berlim, mais aproximou os clubes do que semeou antipatia. Os ingredientes são os mais diferentes possíveis: apostas entre irmãos, bolas que invadem o território adversário, provocações e até espionagem do técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari. O GloboEsporte.com reúne aqui algumas dessas histórias entre os rivais que voltam a se encontrar em campo neste domingo, às 17h, no Pacaembu, pela quinta rodada do Campeonato Paulista.

info CTs São Paulo e Palmeiras (Foto: infoesporte)

Felipão é o personagem mais lembrado quando se recorda histórias do muro. Ali, ele fez de tudo. Divertiu-se com a proximidade do rival, provocou, bisbilhotou, pediu jogadores, contou piadas. Mas também sofreu. Integrante da comissão técnica tricolor desde a primeira passagem de Felipão pelo Palmeiras, no fim dos anos 90, Milton Cruz não segura o riso quando se lembra do dia em que o técnico se lesionou no muro.

– Ele ia sempre lá, chamava a mim e ao Carpegiani. Contava piadas, ele é muito engraçado. Mas teve um dia que ele pisou num buraco e torceu o tornozelo. Encontrei com ele e o Murtosa no semáforo, saindo do CT, e ele estava louco: “Olha só como ficou meu tornozelo!”.

O tom da reclamação subiu no dia em que Milton Cruz resolveu dar uma espiadela no treino do Palmeiras, na véspera de um Choque-Rei. Ele subiu numa escada e observou calmamente. Ninguém do outro lado viu. Mas um fotógrafo que estava no São Paulo viu, e a foto foi publicada no jornal no dia seguinte. Foi quando o auxiliar recebeu um telefonema de Felipão.

– Ele me xingou, ficou p… da vida. Mas ele fazia igual (risos).

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Muro divide CTs São Paulo e Palmeiras na Barra Funda (Foto: Marcos Ribolli)

A versão é referendada por Carpegiani, ex-técnico do São Paulo e maior vítima do amigo Scolari, a quem define como “gozador e malandrão”. Eles foram vizinhos em duas oportunidades: 1999 e durante meses de 2010 e 2011.

Certo dia, enquanto comandava uma atividade no Tricolor, em semana de clássico, o técnico ouviu o grito vindo do outro lado, no inconfundível sotaque de Felipão: “Tô olhando teu time!”. Mesmo quando os rivais não iam se enfrentar, a voz de Felipão era ouvida: “Milton, preciso de um zagueiro! Manda pra cá, você tem muitos!”.

– Ele vivia chorando. O Felipe é um baita gozador e quer tirar proveito de tudo. Ele era um “flertador”. Botava o cabeção dele ali e berrava no intuito de brincar, mas também de sacar coisas que pudessem favorecê-lo – diz Carpegiani.

Contra enchentes ou a favor da espionagem?

É mais fácil para os palmeirenses espionarem o rival do que o contrário. A explicação é simples. Inaugurada em 1991, cerca de quatro anos depois do CT são-paulino, a Academia de Futebol tem terreno mais elevado. No início dos anos 90 se dizia, logicamente, que isso não passava de estratégia justamente para levar vantagem.

Presidente do clube na época da construção da Academia, Carlos Facchina Nunes nega com veemência. Segundo ele, o risco de enchentes foi o principal motivo para a diferença de nível entre os centros de treinamento.

– Não foi nada proposital. Havia algumas enchentes no próprio São Paulo e no Detran, do outro lado. Então resolvemos elevar um pouco o nível. Na época houve muita brincadeira, mas nunca vi problemas. O muro virou um lugar de confraternização – brinca Facchina, que até chegou a despachar do vizinho enquanto sua obra não ficava pronta.

– O São Paulo abriu as portas do CT para mim.

A diretoria do Tricolor poderia ter evitado a vizinhança. A prefeitura ofereceu a concessão de todo o terreno, que hoje abrange os dois centros de treinamento. O então presidente Carlos Miguel Aidar, agora candidato à sucessão de Juvenal Juvêncio, declinou. Disse que não havia necessidade e ficou só com metade. Cada CT tem 46 mil metros quadrados.

Graças a essa decisão, boa parte do lado são-paulino do terreno costuma comparar a barreira ao histórico muro de Berlim, que dividiu a cidade alemã entre setores capitalista e socialista durante a Guerra Fria.

– Eles dizem por aqui que somos o lado ocidental. Todos querem pular de lá pra cá (risos) – brinca o vice-presidente de futebol, João Paulo de Jesus Lopes.

Encontros e desencontros

O muro também foi cenário de gozações e apostas familiares. Durante anos, os irmãos Luiz Alberto Rosan, do lado tricolor, e José Rosan, pelo alviverde, ficaram separados pela estrutura que não impediu apostas inusitadas. Houve uma temporada em que o São Paulo ganhou todos os clássicos contra o Palmeiras. O que rendeu um belo almoço ao vitorioso. O prato principal? Carneiro.

– Todo clássico valia um carneiro. No fim do ano, preparávamos em Potirendaba, no interior de São Paulo, nossa cidade natal. Ganhei todos – conta Luiz Rosan, que hoje trabalha na seleção brasileira e no chinês Shandong Luneng, novo time do técnico Cuca, enquanto o irmão segue no Palmeiras.

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Árvores dos dois lados foram plantadas estrategicamente para dificultar o trabalho de espiões (Foto: Marcos Ribolli)

Se Felipão era o gozador de um lado, Rosan assumiu o papel do outro. Não perdoou nem mesmo o irmão em tempos de crise do Verdão. Marcou um encontro no muro e levou duas garrafas de água para José.

– Falei que era para apagarem o incêndio (risos).

Era ali também que eles e os demais membros dos departamentos médicos combinavam almoços numa churrascaria próxima. O goleiro Marcos, aposentado no início de 2012, costumava fazer parte dos encontros.

Ambos os lados garantem que o “muro de Berlim” da capital paulista vive momentos de tranquilidade. Sem piadas, sem provocações. Até porque nem Palmeiras nem São Paulo vêm de temporadas de glórias. O máximo de interação são as bolas maltratadas pelos bicões dos atletas e que invadem o CT vizinho. Graças a elas, os seguranças acabam se conhecendo. É burocrático devolver o objeto. Rádio pra cá, rádio pra lá… Mas todas voltam, garantem.

Até mesmo as árvores que cresceram do lado tricolor se tornaram um obstáculo. Se os atuais não brincam, os antigos não perdem a piada. Carpegiani diz que a vegetação foi proposital, para Felipão parar de olhar. E gargalha.

Fato é que, a não ser que haja empate, só um dos lados estará sorridente na próxima segunda-feira.

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